O Rio da minha Aldeia
Texto de Alexandre Pinto Cardoso, médico, miracemense e cronista por intuição e vocação. Escreve mensalmente no jornal Liberdade de Expressão.
Recolho este título do poema de Fernando Pessoa , assinado por seu heterônimo, Alberto Caeiro ,que enseja tantas interpretações e dúvidas . * O Tejo é o mais belo rio que corre pela minha aldeia/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia .*
O Ribeirao Santo Antônio é o mais belo e resistente rio que corta a minha aldeia .Nascido lá pelos lados da Serra das Flores , recebe vários pequenos afluentes antes e depois de atravessar Miracema até se “tornar o Pomba” ,como Kalil Gibran descreve o trajeto de um Rio ao chegar ao oceano, com sua angustia de se acabar, descobre que se transforma em oceano.
Debruçado agora, por dever de ofício, a pesquisar e estudar as repercussões da poluição ambiental para a saúde da Humanidade , lembrei-me do meu rio.
O aquecimento global coloca pressão sobre os ecossistemas, acelerando ainda mais a perda crítica de biodiversidade. O excesso de dióxido de carbono, juntamente com o aquecimento da água do mar, promove a acidificação dos oceanos e o esgotamento do oxigénio. Isto resulta num declínio progressivo do fitoplâncton e do crescimento dos peixes que, por sua vez, promove a formação de zonas mortas oceânicas maiores, perturbando a cadeia alimentar e a biodiversidade. A fraca biodiversidade ambiental e a redução do espectro do microbioma são fatores de risco para doenças não só nas populações humanas.
Lembrei- me do meu ribeirão porque foi ele que me apresentou ,ainda menino ,meu primeiro contato com a poluição ,exatamente a de sua bacia hidrográfica.
Banho de rio era uma diversão da molecada , no entanto advertências nos chegavam dos pais: não se podia tomar banho de rio no Poço da Serraria , Nenzinho , Agua Espalhada pois estavam contaminados por esgoto.
Permissão para banho na Represa da Usina porque antes de entrar na cidade estaria provavelmente livre de esgoto e em algum de seus afluentes de menor porte era permitido ou nos açudes da Lagoa Preta, da Liberdade .
Mas o horror, o meu horror, veio com meu primeiro encontro com o vinhoto.. Efluente do processamento da cana de açúcar jogado “in natura” no leito do ribeirão. Alto poder poluidor ,segundos alguns trabalhos cem vezes mais poluidor que o esgoto doméstico, levando uma mortandade sem par dos peixes. Bagres, mandis, lambaris, sairús, traíras lutando para retirar com suas guelras o oxigênio tornado escasso pela oxidação causada pelo “veneno “ me dava literalmente uma agonia .
Quando sangrava o reservatório a tragédia se repetia.
Não me lembro de qualquer iniciativa , à época ,para minimizar o problema, ou oferecer alternativas ( biogás, fertilizantes, bioetanol ...)
Era mais fácil despejá-lo no Santo Antônio.
Enquanto as manilhas de esgoto não tratado faziam a sua parte.
Quando vou à minha terra , visito o ribeirão , olhando da ponte do Aero Clube fico desanimado, pelo ribeirão e pelo estado do Aero Clube.
Quando chove na cabeceira ele sai dos seu leito, protesta, invade a cidade mostrando que agoniza mas ainda não morreu .
Os relatos acima eram observados por um menino de 8 anos em 1955, o rio Tâmisa que banha Londres ,naquela época era uma cloaca , hoje se pesca trutas .
É possível salvá-lo , proteger as nascentes, tratar o esgoto , impedir o lançamento “in natura “ é a palavra de ordem pode ser o projeto de algum candidato a prefeito.

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