Um concerto desafinado

 Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, ousa ir além: não é só o concerto que desafina — o público também precisa ser afinado.

As cadeiras, outrora arquibancadas de estádios e agora rebatizadas de arenas — como se o nome novo resolvesse velhos hábitos — seguem ocupadas por uma plateia que confunde presença com protagonismo e educação com detalhe dispensável.

Afonso observa, com precisão quase musical, que para muitos o concerto virou mero pretexto: vai-se não para ouvir, mas para ser visto; não para apreciar, mas para registrar; não para silenciar, mas para comentar. A música, coitada, vira trilha sonora de conversas paralelas, risos fora de tom e celulares em punho. Um espetáculo à parte — e não dos melhores.

Este colunista, calejado, já abandonou as arquibancadas — ou arenas, como preferem os moderninhos — desde 2018. Na tentativa de assistir a um Atlético x Cruzeiro, no Independência, em Belo Horizonte, experimentou não o futebol, mas a falta dele: empurrões, ofensas e grosseria, tudo isso pelo atrevimento quase revolucionário de pedir que se sentassem.

E o que hoje se vê, mesmo à distância segura da televisão, não sugere melhora — apenas amplificação. O barulho aumentou, a paciência diminuiu e o respeito… bem, esse parece ter saído mais cedo do espetáculo.

Mas, no fundo, fica a dúvida que ecoa mais do que qualquer vaia: será que é isso mesmo que a torcida — e o público — quer? Ou já se perdeu, no meio do ruído, a capacidade de perceber o próprio desafino?

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