O idioma do futebol
Fundo do Baú
O idioma do futebol
Futebol é assunto obrigatório em qualquer roda de bar. Hoje, com a doce presença feminina — cada vez mais forte, inclusive nas mídias esportivas — o papo ganhou novos olhares e um toque de sutileza bem interessante.
Por onde passo, sempre tem um amigo puxando conversa. Como o médico Augusto Tadeu Cardoso, profundo conhecedor do tradicional “esporte bretão”, que vive me abastecendo com boas ideias para essas prosas.
Mas afinal, o que é o tal “esporte bretão”?
Bom começo de conversa.
De onde vem o futebol? Da Inglaterra, certo?
E onde fica a Inglaterra? Na Grã-Bretanha, confere?
E como são chamados os nascidos lá? Bretões.
Pronto: o “esporte bretão” foi importado da Bretanha e chegou ao Brasil pelas mãos de Charles Miller, que retornou ao país trazendo na bagagem duas bolas, um par de chuteiras e um livro de regras. Estava plantada a semente.
Já que a origem está resolvida, vamos ao que mais nos diverte: as manias e gírias do brasileiro quando o assunto é futebol.
Fui “ponta” em transmissões esportivas por muitos anos. E o que é ser “ponta”? É aquele repórter posicionado atrás de uma das metas — ou traves — ajudando o narrador a sentir o clima do ataque e da defesa.
Nessa função, usei muitas vezes a clássica:
“a bola passou tirando tinta da trave do goleiro...”
“Tirar tinta” é passar muito perto.
Mas, entre nós, nem sempre passava tão perto assim… e aí a gente caprichava:
“passou raspando a trave”.
João Saldanha, nosso inesquecível comentarista e ex-treinador da Seleção Brasileira, tinha bordões geniais. Um deles atravessou gerações:
“O atacante está livre na zona do agrião.”
Traduzindo: a parte mais densa da grande área, onde mora o perigo para o arqueiro — sim, o goleiro, aquele que defende o arco. Em Portugal, aliás, é chamado de “guarda-redes”. Faz todo sentido.
Muito antes de Vanderlei Luxemburgo popularizar, já se dizia que a bola estava na “zona da confusão”. Meu parceiro de jornadas, Luiz Cândido Tinoco, ia além:
“tem charivari na zona da confusão.”
Ou seja: perigo iminente na área.
Seguindo as dicas do Dr. Augusto, chegamos ao “fio desencapado”: aquele jogador que entra em campo já pilhado, nervoso, pronto para arrumar confusão. Cartão amarelo — ou vermelho — é quase destino certo. Um exemplo típico? Felipe Melo em seus dias mais intensos.
Já o zagueiro que se acha dono da área, o “xerife”, entra muitas vezes “cuspindo marimbondo” — expressão que também serve para dirigente bravo com a arbitragem, partindo para o confronto sem freio.
Quem adora esse repertório é Washington Rodrigues, o eterno Apolinho, veterano comentarista e um dos grandes nomes do rádio brasileiro.
Mas tem uma expressão que atravessa gerações e, para mim, vem lá dos tempos da Rádio Continental, minha companhia fiel na infância. Avelino Dias dizia para Clóvis Filho:
“a bola entrou lá onde a coruja dorme.”
Ou, como também se diz: entrou na forquilha.
Em bom português: no ângulo, sem chance para o goleiro.
E assim o futebol vai construindo não só histórias, mas um idioma próprio — rico, criativo e absolutamente brasileiro.
Breve volto com mais um capítulo desse nosso vocabulário da bola.
Sugestões são sempre bem-vindas.

Comentários
Postar um comentário