O amor pelo rádio ainda existe?
Quando o rádio era arte
Outro dia assisti a José Silvério no Bola da Vez e tive uma certeza incômoda: o rádio pode até continuar existindo, mas aquele rádio… ah, aquele ficou no passado.
E não é saudosismo barato, não.
É comparação mesmo.
Sou de um tempo em que o rádio não apenas transmitia futebol — ele criava o jogo. Em Miracema, garoto ainda, eu não via a partida: eu imaginava. E, curiosamente, enxergava melhor do que hoje, com tantas telas à disposição.
Porque havia narradores.
Narradores de verdade.
José Silvério é um desses. Da escola que começou na Continental, que passou pela Jovem Pan, que transformou transmissão em espetáculo. Da geração que “irradiava” futebol, não apenas descrevia.
Hoje… bem, hoje se fala muito e se diz pouco.
Naquele tempo, cada emissora tinha um time de gigantes. Continental, Nacional, Globo, Tupi, no Rio. Pan-Americana, Tupi, Gazeta, Bandeirantes, em São Paulo. Era um desfile de talento.
Clóvis Filho, preciso e elegante.
Jorge Cury, transformando jogo do Flamengo em evento histórico.
Waldir Amaral, com sua força inconfundível.
E, do lado paulista, um capítulo à parte.
Haroldo Fernandes, meu maior ídolo. Narrava com poesia — coisa que hoje parece até proibida. Futebol, para ele, era mais do que resultado: era narrativa, era construção, era emoção.
Osvaldo Maciel, já mais próximo da minha geração, leve, carismático, dono de um bordão que eu mesmo tratei de “adaptar” no começo da minha caminhada.
E, acima de todos, Osmar Santos.
O “Pai da Matéria”.
Um narrador tão grande que o microfone parecia pequeno para ele. Até que a vida, injusta como costuma ser, interrompeu sua trajetória de forma brutal.
Agora me diga: quem hoje chega perto disso?
Quem, entre os atuais, teria lugar naquelas equipes históricas?
Sinceramente?
Nenhum.
Hoje temos bons profissionais, claro. Vozes corretas, transmissões organizadas, tecnologia de sobra.
Mas falta alma.
Falta estilo.
Falta coragem para ser diferente.
O rádio de hoje informa melhor, talvez.
Mas emociona menos — muito menos.
E futebol sem emoção é só um jogo.
O que aqueles homens faziam era outra coisa.
Era arte.

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