No tempo do rádio
E foi batata. Bastou olhar a imagem para que a memória me levasse, sem pedir licença, a uma tarde de quarta-feira, dessas comuns, com cara de nada — mas que acabou virando tudo. Naquele dia, Goytacaz e América de Três Rios se enfrentavam pela 1ª Divisão do Campeonato Carioca. O jogo era às 15 horas, e como meu expediente no Banerj terminava às 14h, deu tempo de correr até o Arizão. Coisa de rotina. Ou parecia.
Mas o futebol — como a vida — adora mudar o roteiro.
Luiz Paulo Ribeiro teve um piripaque, a pressão subiu, e foi vetado para a transmissão. De repente, me chamaram. Era subir e narrar. Assim, sem aviso, sem ensaio, sem rede de proteção. E eu fui. No fundo, com aquele frio na barriga que só quem vive de emoção entende — mas também com a vontade danada de mostrar que dava conta do recado na Campos Difusora.
Entre papéis, anotações e aquela correria de cabine, escrevi “Três Rios” ao lado do América. E foi aí que a lembrança bateu mais forte: João Carlos. Naquele tempo, ele gerenciava o Banco Nacional na cidade.
E bastou pensar nele.
Falar em J. Carlos — como eu gostava de chamá-lo — me deu ânimo, segurança, impulso. Era mais que um amigo, era daqueles que empurram a gente pra frente sem fazer alarde. Durante a transmissão, seu nome escapou várias vezes, quase como um agradecimento ao vivo, no meio do jogo.
Dias depois, já em Miracema, nos encontramos. E ele, com aquele jeito tranquilo, me contou: a rádio de Três Rios estava em cadeia com a Difusora. No dia seguinte, não foram poucos os que chegaram até ele para comentar — e elogiar — as palavras que ouviam do outro lado.
O rádio tem dessas coisas. A gente fala, o som viaja, e a emoção encontra destino sem que a gente veja.
Hoje, revendo aquela fotografia, entendo melhor o que ficou. Mais do que o jogo, mais do que a transmissão, mais do que a surpresa daquela tarde — ficou o laço.
E por isso, J. Carlos, onde quer que você esteja, fica aqui o registro simples, mas sincero: você faz uma falta danada por aqui.

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