Reflexão:Mudou a política?
A gente envelhece — e, junto com os cabelos brancos, chegam algumas verdades que antes passavam despercebidas. Nem todas são boas. Algumas vêm com um certo amargor, como aquela lembrança que insiste em voltar.
A minha tem endereço certo: Miracema.
Mais precisamente, a Praça Ary Parreiras — meu mundo de menino, minha casa por perto e o bar do meu avô, Vicente Dutra, como extensão da vida.
Com o tempo, a gente também aprende que memória não falha por acaso. Às vezes, ela se esconde. Protege. Adia. Até o dia em que resolve aparecer — inteira, incômoda, definitiva.
E talvez tenha sido justamente ali que eu me afastei da política.
Curioso, porque tudo indicava o contrário.
Nos anos 60, fui garoto de recados da Câmara de Vereadores. Cresci cercado por homens que, goste-se ou não de suas ideias, sabiam o peso da palavra “representante”. Nomes que marcaram época — e que me fizeram, por um instante, imaginar que aquele também poderia ser o meu caminho.
Entre eles, uma figura especial: Altivo Mendes Linhares. Presença constante no bar do meu avô, amigo da casa, incentivador declarado. Convívio com Jamil Cardoso me daria entender política era coisa de gente séria, como ele.
— “Esse menino leva jeito, Vicente.”, dizia Altivo Linhares
E eu levava mesmo… ou pelo menos achava que levava.
Circulava pela Prefeitura, pelo fórum, aprendendo sem perceber. Tudo ali, na mesma praça, como se o destino estivesse desenhado.
Mas destino também muda de ideia.
Bastou um dia.
Uma eleição.
Uma discussão banal.
Um pavio curto.
E o que começou nas mesas do bar ganhou a rua.
Virou grito.
Virou empurrão.
Virou briga.
Uma batalha campal nascida de algo tão pequeno quanto simbólico: a troca — ou a recusa da troca — de cédulas eleitorais. Naquele tempo, era assim que se votava.
Hoje parece distante.
Mas, olhando bem… será mesmo?
Naquele dia, não vi apenas uma briga.
Vi a intolerância.
Vi o fanatismo.
Vi a incapacidade de ouvir o outro.
E aquilo ficou.
Ficou de um jeito que não se apaga.
Talvez tenha sido ali que a política perdeu alguém.
Ou talvez tenha sido ali que eu ganhei distância suficiente para não me perder nela.
Hoje, quando abro as redes sociais e vejo discussões inflamadas, certezas absolutas e verdades aos gritos, tenho a sensação de estar assistindo à mesma cena — só que sem poeira, sem bar, sem praça.
Mudaram os palcos.
Os atores… nem tanto.
E aí me pergunto — sem muita esperança de resposta:
A política piorou…
ou fomos nós que nunca aprendemos a fazê-la melhor?
Eu fiz minha escolha há muito tempo.
Fiquei de fora.
Não por desinteresse, mas por convicção.
Porque, no fim das contas, fazer política com elegância, respeito e sabedoria nunca foi para muitos.
E continua não sendo.

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