Uns chopes prá distrair


 
Cinco caipiras e um     punhado de chope         

Tem cidade que a gente visita 

E tem cidade que a gente vive — mesmo que por dois dias.

Ribeirão Preto, pra mim, sempre foi assim: mais do que destino, virou cenário de memória.

Nos anos 80, eu ainda era aquele sujeito em formação — curioso, meio atrevido, desses que aparecem sem ser chamado e ficam. Ia pra São Paulo sempre que podia, grudava no José Maria de Aquino e me infiltrava no mundo que eu queria um dia chamar de meu. Redação, viagem, estádio… eu estava sempre por perto. Um “malinha”, como diria Fausto Silva, mas com sede de aprender.

E aprendi.

Aprendi vendo gente grande trabalhar, ouvindo mais do que falando — embora às vezes eu falasse demais. Gente como Antero Greco, que tinha a elegância de quem sabia tudo sem precisar provar nada. Eu dava meus pitacos sobre futebol internacional, ele escutava como se aquilo importasse. Talvez nem importasse. Mas pra mim, importava tudo.

Foi nessa estrada que Ribeirão entrou de vez na minha história.

Primeiro, com a turma da Globo. Hotel cheio, bastidor fervendo, jogador passando no corredor — e eu ali, fingindo naturalidade. Conheci o goleiro Barbiroto, figuraça, desses que parecem personagem pronto. À noite, fomos ao Piracema's, onde as paredes contam histórias melhor do que muito livro.

Todo mundo escrevia alguma coisa. Nome, frase, lembrança.

Eu não pensei duas vezes.

Ao lado de uma mensagem de Jorge Curi, cravei, com a confiança que só a juventude explica:

“Adilson Dutra, de Miracema para o mundo, esteve aqui.”

Era ousadia?

Claro que era.

Mas também era um jeito de dizer pra mim mesmo: você pertence a esse lugar.

Anos depois, voltei.

Já não era o mesmo garoto. Estava com a turma da Rádio Cidade de Campos, chefe de equipe, microfone na mão e responsabilidade nas costas. Fomos cobrir Botafogo Futebol Clube (SP) x Americano Futebol Clube.

Sábado, 16h.

Ou pelo menos era o que dizia a tabela.

Porque ao chegar, descobrimos: jogo adiado para domingo.

E aí, meu amigo… o destino resolveu escalar outro tipo de partida.

Fomos direto para a Choperia Pinguim.

O resto não foi exatamente planejado.

Entre um chope e outro — e depois de muitos outros — o tempo perdeu a pressa. Conversa vai, risada vem, alguém puxa um bolero… e quando vimos, já éramos um coro. Cinco vozes desafinadas, mas cheias de convicção.

A noite avançou sem pedir licença.

Até que o garçom, com a calma de quem já viu de tudo, decretou: — Vocês secaram um barril.

Aquilo soou como apito final.

Saímos.

E fomos andando.

Pelas ruas de Ribeirão, cantando como se estivéssemos num palco invisível. Não sei quanto tempo durou — talvez uma hora, talvez mais. Sei que, em algum momento, alguém olhou pra trás… e viu que não estávamos mais sozinhos.

Um pequeno cortejo tinha se formado.

Gente rindo, acompanhando, aplaudindo.

Cinco caipiras, levemente embriagados, liderando um desfile improvisado no meio da noite.

Nenhum de nós era famoso.

Mas, por alguns minutos, fomos espetáculo.

Chegamos ao hotel ainda cantando, ainda rindo, ainda vivos daquele jeito que só certas noites permitem.

No dia seguinte teve jogo, transmissão, trabalho… tudo como manda o roteiro.

Mas a verdade?

O jogo mesmo tinha sido no sábado.

E a gente venceu de goleada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Champions define semifinalistas

Brasileirão: quem cai?

Quem vai a Copa?