Gelada? Qualquer uma.
Tem certas coisas que rendem crônicas. Não só o futebol e suas torcidas — a cerveja também rende bons papos nos bares da vida. E, volta e meia, até confusão. Não por beber, mas por preferir uma ou outra marca, como sempre foi comigo desde que comecei com minhas “louras geladas”.Lá no Bar do Vicente, do meu avô Vicente Dutra — que depois virou Bar do Zebinho, do meu pai — eu cresci ouvindo a mesma cena se repetir. Os caras chegavam do trabalho, naquele horário que hoje chamam de “happy hour”, mas que pra nós era só o momento sagrado de jogar conversa fora, e já gritavam da porta:
— Seu Vicente! Sai uma Brahma casco escuro, bem gelada!
E aquilo me intrigava. Todo mundo pedia casco escuro. Antártica ou Brahma. Mas então por que diabos existia casco verde?
Fui entender isso anos depois, já na Rua José Higino, na Tijuca, onde ficava a fábrica da Brahma. Fui morar por lá com minha tia Durvalina e conheci o Marreco, sujeito que trabalhava na fermentação e batia ponto também no bar do Seu Arthur, português flamenguista ali do lado.
Perguntei a ele: — Marreco, por que você bebe Brahma casco verde e lá em Miracema só pedem casco escuro?
Ele, com a simplicidade de quem já viu de tudo, respondeu: — Sabe quando alguém fala uma coisa e todo mundo começa a repetir? Então… dizem que o casco verde bate sol e o escuro protege. Você acredita nisso? Eu não.
E assim, sem tese nem discurso, ele desmontou um dos maiores mitos de boteco.
Mas vamos ao que interessa. A pergunta que nunca falha: — Qual cerveja comprar pra confraternização?
Henrique, que bebe qualquer uma, quis minha opinião. Fugi da responsabilidade. Mandei Marco e Evaldo escolherem. Segundo eles, eu sou “sofisticado”, porque gosto de Heineken, enquanto a turma vai na “romarinho”, mais em conta.
No fundo, ninguém quer escolher. Quer só garantir que tenha.
Lembrei então de um aniversário meu, quando eu começava a gostar da Stella. A turma caiu matando: — Cerveja forte demais! — Caro demais!
Preferiam a Kaiser pequenininha, que cabia no bolso.
No dia da festa, resolvi não contrariar ninguém: mandei gelar três caixas de Kaiser pra galera, uns “romarinhos” pros mais chegados e meia dúzia de Stella só pra mim.
Resultado? Reclamação.
Disseram que eu era elitista. Que eu bebia melhor e oferecia pior.
Ou seja: não era sobre a cerveja. Nunca foi.
No meio disso tudo, sempre me vem à cabeça a frase do velho Jorge Pela Égua, lá no Bar do Carlinhos Cachoeira: — Quero a mais gelada e a mais barata. Mas se alguém pagar, pode ser Antártica que eu aceito.
E talvez seja isso.
No fim das contas, cerveja boa não é a mais cara, nem a mais falada, nem a de rótulo bonito.
Cerveja boa é a que está gelada, a que cabe no bolso… e, principalmente, a que não vem acompanhada de frescura.
Porque, se fosse de graça, meu amigo… até a pior virava a melhor da mesa.

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