De Miracema para o mundo
CAPITAIS QUE ME HABITAM
Desde 2005 venho andando pelas estradas do mundo — e, curiosamente, elas também passaram a caminhar dentro de mim.
Tudo começou com uma viagem à Europa, prêmio por um trabalho realizado para a ESPN Internacional. Era para ser apenas uma conquista profissional. Acabou virando um vício. Ou melhor, um destino.
De lá até 2020, foram 23 países visitados. Em apenas três deles — Eslovênia, Marrocos e Paraguai — não conheci suas capitais. Nas outras vinte, deixei algo de mim… e trouxe muito mais de volta.
Este não é um guia turístico. É um álbum de sensações.
Começo por Paris, onde estive quatro vezes — e nunca foi suficiente. Em Montmartre, entre artistas e sonhos espalhados pelas calçadas, entendi por que a chamam de Cidade Luz. Não é só pela iluminação. É pela forma como ela acende algo dentro da gente.
Lisboa veio depois — ou melhor, voltou. Em 2015, revisitei o Chiado com mais calma, como quem relê um livro já amado. Ao lado de Fernando Pessoa, no Café A Brasileira, percebi que algumas fotos são disputadas porque capturam mais do que imagem: capturam pertencimento.
Em Montevidéu, a Rambla me ensinou a desacelerar. Caminhar ali, entre o pôr do sol e o silêncio elegante da manhã, é quase uma forma de oração.
O Vaticano não é apenas um país. É uma pausa. Um lugar onde o tempo parece sussurrar. Diante da Capela Sistina e do túmulo de João Paulo II, a grandiosidade não está nas paredes — está no significado.
Roma… ah, Roma não se descreve. Se sente. Cada passo é uma aula de história. Cada esquina, um capítulo da humanidade.
Ankara me mostrou o peso das decisões de um homem na construção de um país. No mausoléu de Atatürk, a história deixa de ser abstrata — ela ganha forma.
Budapeste me deu uma das vistas mais bonitas que já tive. Do lado de Buda, olhando Peste ao longe, percebi como uma cidade pode ser, ao mesmo tempo, duas almas em harmonia.Varsóvia e Berlim têm algo em comum: renasceram. São cidades que carregam cicatrizes — mas também dignidade. Estar ali é entender que o mundo já errou muito… e ainda assim segue em frente.
Brasília, nossa capital, é um contraste permanente. Beleza arquitetônica e turbulência política dividem o mesmo espaço. Mas há algo ali que impressiona — talvez a ousadia de existir.
Madrid foi minha porta de entrada. O primeiro pouso. O primeiro estádio. O primeiro encantamento. E, como todo primeiro amor, nunca saiu completamente de mim.
Marrocos foi diferente de tudo.
Não foi apenas uma viagem — foi um mergulho em outro ritmo, outra cultura, outro tempo.
Em Marrakech, me perdi de propósito. Entre cores, sons e cheiros, a cidade pulsa como um organismo vivo. As ruas falam, os mercados gritam, e a gente aprende rápido que ali não se passa — se vive.
Fez é mais profunda. Mais silenciosa, quase espiritual. Caminhar por suas vielas é como voltar séculos no tempo, onde cada esquina guarda um segredo e cada porta parece esconder uma história.
Tanger tem vento. Tem mar. Tem travessia. É cidade de passagem e, ao mesmo tempo, de permanência na memória. Foi dali que senti o mundo se estreitar diante dos meus olhos.
E então veio o Saara.
O deserto não é vazio — é imenso. E, na imensidão, a gente se encontra. O silêncio do Saara é talvez o som mais alto que já ouvi. Ali, não há distrações. Só você… e tudo aquilo que carrega por dentro.
E como se não bastasse, houve a travessia do Canal de Gibraltar.
Poucos quilômetros separam continentes — mas a sensação é de atravessar mundos. De um lado, a Europa. Do outro, a África. No meio, a certeza de que o planeta é muito maior do que qualquer mapa consegue mostrar.
Mônaco, pequeno no mapa e gigante no imaginário, me mostrou que há países que vivem de sonho — e funcionam.
Berna, discreta e encantadora, me deu o melhor almoço da minha vida, em meio ao frio europeu. Pequenos momentos também fazem grandes viagens.
Santiago trouxe o jornalismo de volta ao centro da minha história. Em frente ao La Nación, lembrei quem eu era… e por que comecei.
Buenos Aires pulsa. Em La Boca, entre cores, futebol e tango, a vida parece mais intensa.
Londres impõe respeito. Tradicional, moderna, grandiosa. E aquele ônibus vermelho… não é só transporte, é identidade.
Bruxelas me surpreendeu. Em poucas horas, mostrou uma das praças mais bonitas que já vi. Às vezes, o pouco tempo basta.
Amsterdã flui. Como seus canais, a cidade segue leve, carregada de histórias que passam silenciosas diante dos olhos.
Praga… Praga não entra em disputa. Ela vence. É, sem esforço, uma das cidades mais bonitas do mundo — talvez a mais bonita que já vi.
E Viena… Viena foi sonho de menino realizado. Estar ali, no teatro onde gigantes se apresentaram, foi entender que alguns sonhos demoram, mas chegam.
Ao final dessas viagens, percebi algo curioso: eu não colecionei destinos.
Colecionei versões de mim mesmo.
Cada cidade me deixou um pouco diferente. Mais atento, mais sensível, mais humano. E talvez seja isso que viajar realmente significa — não mudar de lugar, mas permitir que o lugar mude a gente.
E sigo.
Porque ainda há estradas lá fora.
E, com sorte, muitas outras aqui dentro.



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