Apenas um sonho e nada mais
SONHEI QUE ESTAVA JOGANDO O JOGO DOS SONHOS
Era um momento mais do que sublime. O craque do interior, assim eu me julgava, entrava no maior palco futebolístico do mundo. O nosso estilista da bola, ele se emocionava quando um fã assim o tratava, entrava no Maracanã pela primeira vez. Estádio lotado e no gramado a companhia de alguns dos mais brilhantes jogadores do planeta bola. Ilusões e fantasias faziam o pano de fundo daquela contenda maravilhosa. Zico, Leandro, Raul e Júnior, de um lado.
No outro lado Lauro Carvalho, Milton Cabeludo, Manoel Lima e Alvinho. Feras, só feras. Como serão armados os times? Perguntavam os convidados para o Jogo dos Sonhos. – Aguardem. Não vou definir agora. Se cometer injustiça eu posso não ser perdoado por estes deuses da bola.
Penso bastante e começo a analisar. No time vermelho e preto, devo colocar o Zé Navalha, afinal, joguei com ele e o conheço bem, o Raul fica esperando no banco de reservas. Não. Raul pode jogar no time preto e branco. Vou entrar com o Leandro de central ao lado do Manoel Lima, meu Deus! Que dupla de craques. Já que o "Peixe Frito" fica na zaga central, vou colocar o David na lateral direita e o Júnior na esquerda.
Cara, com sinceridade, quanta categoria reunida em uma zaga só: Zé Navalha, David, Leandro, Manoel Lima e Júnior. Nem sonhando este time perde para um adversário qualquer. Espere um pouco. Esqueci do Bizuca, meu eterno goleiro. Tá bom, eu concordo que ele está um pouco fora do ponto. Vai ser o treinador deste time. Todos concordam.
Amigos, e para escalar o meio campo, quanta dificuldade! Tenho um punhado de gente esperando vaga e só tenho três camisas disponíveis, isto mesmo, três camisas, meu time é de toque fino, de qualidade rara e por isto joga com três craques no meio campo, se precisar de porrada eu coloco o Geraldinho, mas pensando bem acho que vou mesmo é de 4-3-3, afinal em sonho vale tudo, não é mesmo? Andrade, Ademir e Júlio distribuindo jogo para um ataque formado por Milton Cabeludo, Lauro Carvalho e Edil.
Lauro está um pouquinho gordo, mas pode ajudar a criar e a lançar os velozes Edil e Milton Cabeludo, estes três já estão do lado oposto da vida, será que podem jogar juntos? Claro é um jogo de sonhos e por isto garantem um lugar na partida. Como é que a gente fica agora? Time definido e muita bronca do lado de fora, craques quando não são escalados no primeiro time choram a vontade e temos que ter certa habilidade para conter a vaidade de cada um.
Vamos formar o outro time e encontramos dificuldades, tem muita gente esperando e apenas onze vagas no time, duas delas estão garantidas, vou botar o Lula na zaga e o Ataíde na lateral esquerda, afinal, estes dois me atormentaram a vida inteira e neste sonho não podem estar de fora, assim como o Valdir na zaga central. Na outra lateral, nem sei quem vou colocar, acho que vou improvisar o Paulo Lolita por ali para abrir uma brecha no meio campo para o Júlio. Então tá. Raul, Paulo Lolita, Valdir, Lula e Ataíde, Geraldinho, Júlio e Geraldo, o assobiador, que também desceu a terra para nos brindar neste jogo imaginário.
Ficou gente de fora, como no time vermelho e preto só onze podem jogar, vamos pensar direito e escalar o ataque de forma correta para não fazermos injustiça. Pergunto a um ou dois companheiros e estes ficam no muro. Tomo a decisão que acho mais acertada e escalo o trio de ataque com: Genuíno, Thiara e Chiquinho. Nesta altura da arrumação me chega o Alvinho pedindo uma vaga. Tiro o Lolita da lateral e coloco o Alvinho por ali, escalo o Geraldo flutuando pelo gramado e o Lolita na meia. "Ficaram doze em campo", alerta-me o Arani.
Tem nada não, o Geraldo ficará flutuando e este time também é uma fantasia. Vale tudo na ilusão. A bola vai rolar. Maracanã vazio. Ninguém acreditou que este espetáculo era verdadeiro, também, com o Russo no apito, Pedro Paulo e Paulo Pimenta nas bandeiras o que você acha que poderia acontecer? Só mesmo em um sonho maluco como este.
Senhoras e Senhores vai começar mais um espetáculo de futebol no maior do mundo. Jorge Curi comanda o primeiro tempo e Aluísio Parente o segundo período, duas lendas da narração esportiva que já não estão entre nós. Comentários de Chico Davi e Fernando Nascimento, o que abraça o povo. Zé Luiz, o de categoria, prepara-se para entrevistar os maiores craques da terra e do céu ao lado de Paulo Frank e Welington Ronzê.
Na cabine ao lado outros profissionais se preparam para mais um show de bola. Sérgio Tinoco e Valdir Amaral dividindo a narração e José Nunes da Fonseca comentando o que viu e o que não viu. Pessanha Filho e Arnaldo Garcia, nas pontas, dão o brilho que faltava a transmissão. Barbosa Lemos chega atrasado e fica fora da partida, vai dividir um espaço na Tribuna de Honra com outro político que chegou para prestigiar o cotejo, Luis Fernando Linhares, reclamando porque o jogo não fora marcado para o Ferradurão, mais perto de sua morada eterna.
Tudo pronto. Vai começar a partida mais aguardada por todos aqueles que amam o futebol arte, o futebol espetáculo. O Marconi, ao lado do Chiquinho Maracanã, chegam atrasados porque passaram na Rua do Sabão para pegar o Braizinho. O Silvinho ficou preso no engarrafamento nas nuvens, muita chuva e como não o achou, João Moreno não quis participar sem o irmão.
Tudo pronto. Russo apita tão alto que acordei assustado. Eu não estava escalado e o jogo não passou de um sonho frustrado. Você sabe como ficou o jogo? Eu também não sei, apenas tenho a certeza de que todos aqui foram meus ídolos e amigos e que me fizeram feliz por várias e várias vezes.
Comentários
Postar um comentário