Revendo textos antigos - Futebol é prá homem?
Mulher e o futebol
Na quarta-feira, dia de jogo da Seleção Brasileira, minha esposa me fez um convite inesperado:
— Vamos ver o jogo juntos. Largue a cerveja e venha assistir comigo, pelo menos neste segundo tempo.
Claro que aceitei o apelo. Afinal, foram mais de trinta e cinco anos esperando despertar nela, ainda que apenas nos jogos da Seleção, uma certa paixão pelo futebol.
Só havia um pequeno detalhe que atrapalhava. No dia seguinte, durante o almoço, nossa filha Gisele comentou:
— Minha mãe fez a maior bagunça e não parava de gritar cada vez que o Brasil perdia um gol.
Era exatamente isso.
Uma pena que, justamente quando Marina começava a gostar de futebol e a torcer pela Seleção, como milhões de esposas e namoradas neste país apaixonado pela bola, eu e tantos outros torcedores já deixávamos de admirar aquela outrora gloriosa Seleção Canarinho. Faltava ao time justamente o que sobrava às novas torcedoras: amor à camisa.
Ao contar essa história, lembrei-me do velho Vicente Dutra, um apaixonado pelo futebol que, assim como Marina, só torcia pela Seleção Brasileira. Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense ele não suportava.
— Esses times só me dão aborrecimento. Os torcedores vão para o meu bar, enchem a cara, escutam os jogos no rádio e ainda acabam quebrando o estabelecimento.
Era assim mesmo.
Hoje os bares ficam lotados para acompanhar os jogos pela televisão. Há algumas décadas, porém, quem mandava era o rádio. Os narradores pintavam com palavras aquilo que nossos olhos não podiam ver.
O avô de Marina, o velho Jovelino, também era um legítimo torcedor da era do rádio. Mas, ao contrário de Vicente, torcia apenas pelo seu clube do coração. Da Seleção, preferia nem falar.
Vocês talvez se lembrem daquela crônica publicada no Dia das Mães, quando contei que Marina ainda não sabia o que era impedimento.
Pois é... eu estava enganado.
Hoje ela entende de tática, conhece a regra do impedimento, sabe quando há vantagem numa jogada e até percebe quando o bandeirinha cochila.
No gol anulado de Diego, ela protestou imediatamente:
— Esse bandeira é maluco! Só o Robinho estava impedido. O Diego estava em posição legal!
E ficou aguardando apenas a confirmação do replay.
Confesso que é muito mais divertido assistir ao futebol assim: ao lado de alguém que passou a gostar do jogo, vibra, reclama e sabe exatamente o que está dizendo.
Reler essas crônicas anos depois é interessante. Em 2014, você falava do despertar da Marina para o futebol. Hoje, depois de tantas Copas comentadas por vocês, esse texto ganha um sabor ainda mais especial, porque registra exatamente o começo dessa parceria diante da televisão.
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