Com vocês: Zé Maria de Aquino

           Um campeão africano?

José Maria de Aquino 

Alguns jogos dessa Copa Espalhada têm me levado a pensar no que dizia o Joca, aquele baixinho comportado lá da minha Santa Terrinha, Miracema, noroeste do Estado do Rio, fiel frequentador das sessões do Cine Sete, nas noites de sábado.

O programa, anunciado em grandes e belos cartazes pintados pelo Sílvio Felix, que mais atendia por Buru, era sempre igual: um "farveste" e um capítulo do seriado.

O ritual do Joca, funcionário da Serraria do Melchiades Cardoso, também era o mesmo: passava na padaria do Argentino, comprava uma dúzia de rosquinhas - daquelas que faziam barulho quando mastigadas e tirava seu ingresso.

Eram duas sessões, às 18 e às 20 horas. Joca preferia a das 20. Ia no "poleiro", local mais barato, mais longe da tela, alcançado uma uma estreita escada de madeira. 

Sentava na primeira fila e assim que as luzes eram apagadas, mordia a rosquinha e fazia o mesmo desafio - nunca aceito - para delírio e aplausos dos frequentadores: "5 por um que o mocinho vai ganhar, mas ainda hei de ver o bandido vencer'.

É esse "desafio" que me vem à mente quando vejo seleções consideradas pelo entendidos como meros figurantes - aqueles índios que morrem dezenas de vezes no mesmo filme - dando trabalho nas eternas favoritas.

Uma madrugada, jantando com o técnico Carlos Alberto Parreira, após um programa Bem, Amigos, perguntei a ele se concordava comigo que um dia uma seleção africana ganharia a Copa. Falei dos grandes craques que aparecem por lá, e ouvi um não.

Parreira, todos sabem, era o técnico da seleção brasileira no tetra, em 1994, nos EUA, dirigiu a sul-africana em 2010, frequentava a cúpula do futebol mundial, devia saber o que falava

Nessa Copa inchada, uma das apontadas como favoritas, a Alemanha, já foi despachada, assim como a Holanda, que corria por fora, e a tradicional do Uruguai. Brasil, Inglaterra, Portugal, Bélgica, Noruega - candidatas e não desprezadas - suaram frio.

E esta noite deu gosto ver Cabo Verde justificar -- também - o projeto de João Havelange. quando presidente da Fifa, de espalhar o futebol por todos os cantos do mundo, levando a entidade ter mais membros que a ONU - mazelas à parte.

Gostaria - por que não? - ver uma das seleções meras figurantes - índios que morrem muitas vezes - levantar o caneco desta vez. Não exclusivamente africana, mas também pelo que já vi, Espanha e França não permitirão. Ou?

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