Uma volta ao passado - A esquina da Kiskina
KISK A ESQUINA ONDE MIRACEMA SE ENCONTRAVA
Por Adilson Dutra — O Penacho
Estou na Terrinha. E, quando estou aqui, não resisto a repetir minha frase favorita:
Sou feliz, sou de Miracema!
Hoje, neste espaço onde costumo falar de futebol, viagens, histórias e causos da vida, abro uma exceção para uma lembrança que chegou pelas mãos de um querido amigo.
Flávio Franco, o nosso eterno Pispia, publicou em sua página do Facebook uma recordação de um lugar que marcou gerações. Um lugar que vi nascer, frequentei intensamente e, felizmente, não tive o desprazer de assistir ao seu fechamento.
A Kiskina Chope!
E a lembrança chegou numa data especial. Hoje, 31 de outubro, completo 41 anos de vida campista. Já recebi até o título de Cidadão Campista, mas continuo sendo, de corpo, alma e coração, aquele menino de Miracema que nunca abandonou suas raízes.
A Kiskina foi meu ponto de encontro favorito desde o nascimento até pouco antes de seu encerramento definitivo, já sob a responsabilidade de Roney Machado.
E que história teve aquela esquina!
Foram muitos amigos reencontrados, incontáveis conversas, histórias que viraram crônicas e outras tantas que, por prudência, continuam guardadas no baú.
Ali começaram namoros, floresceram romances e, dizem as más línguas, até alguns casamentos encontraram seu ponto final por causa de encontros pouco recomendáveis.
Não me incluam nessa parte, por favor! Rssss.
Aquela esquina foi, durante muitos anos, uma das mais badaladas de Miracema. Desde 1976, atravessou décadas, modas, gerações e transformações, até fechar definitivamente suas portas nos anos 2000.
Mas pouca gente sabe, ou talvez já tenha esquecido, como tudo começou.
A Kiskina nasceu dentro do nosso escritório!
É isso mesmo, meu caro Pispia.
Eu e você éramos funcionários, dois verdadeiros moleques andeiros, como gostávamos de dizer, trabalhando com Lauro Quintal e Zé Carlos Rabelo.
Foi Zé Carlos quem, ao lado dos cunhados Luiz Delco e Roberto Lagoa, deu vida àquele empreendimento que se transformaria numa referência da cidade.
Talvez nem eles imaginassem que estavam criando muito mais que um estabelecimento comercial.
Estavam inaugurando um pedaço da história afetiva de Miracema.
Por ali passaram gerações que venceram na vida, outras que se perderam pelos caminhos e tantas que simplesmente viveram seus melhores momentos naquela esquina.
E todos, de alguma maneira, encontravam ali um lugar para voltar.
A Kiskina era isso: um ponto de encontro onde ninguém precisava marcar encontro.
Eu mesmo tinha um ritual.
Quando chegava à Terrinha, especialmente aos sábados, sentava na esquina. Na esquina mesmo! Debaixo de sol quente, sem me preocupar com o relógio ou com o calor.
Afinal, aquele era um ponto obrigatório de passagem para quem caminhava pelo lado direito da Rua Direita.
E bastava sentar.
Um amigo aparecia, parava para conversar. Outro chegava, puxava assunto sobre futebol. Um terceiro queria falar de música, política, viagens ou simplesmente contar as novidades da cidade.
E, entre um dedo de prosa e outro, surgia uma cervejinha.
Podia ser meio-dia, uma da tarde ou qualquer hora. Na Kiskina, o relógio parecia trabalhar em ritmo diferente.
O tempo passava, mas ninguém tinha pressa.
E como era bom!
Roney Machado, que comandou o lugar em seus últimos tempos, também faz parte dessa história. A Kiskina e Roney proporcionaram alegrias, encontros, gargalhadas e, vez ou outra, algumas irritações.
Era o ponto de partida para praticamente tudo que acontecia na cidade.
Tinha baile? Primeiro, Kiskina.
Tinha festa? Passava-se na Kiskina.
Tinha encontro com amigos? Nem precisava combinar o endereço.
Antes de qualquer programação noturna, aquela esquina funcionava como uma espécie de aquecimento oficial da alegria miracemense.
E, para este Velho Escriba, foi também uma fonte inesgotável de inspiração.
Mas prometi contar o que me desagradava naquele paraíso de conversas e amizades.
E vou cumprir.
O som dos carros!
Ah, meus amigos, como havia gente apaixonada por música alta!
Alguns estacionavam seus veículos com equipamentos de som de qualidade duvidosa e um repertório que, na minha opinião, conseguia ser ainda pior.
Era um verdadeiro atentado aos ouvidos de quem pretendia apenas conversar.
Confesso que aquilo me irritava.
Mas nunca pedi ao Roney que acabasse com a diversão daquela turma. Afinal, cada geração tem suas manias, seus gostos e suas maneiras de comemorar a vida.
E nós vivíamos em paz.
Naquele tempo, até os aborrecimentos acabavam virando motivo de conversa e, mais tarde, de boas risadas.
Hoje, olhando para aquela esquina, não vejo apenas um estabelecimento que fechou as portas.
Vejo amigos chegando, outros indo embora, abraços, gargalhadas, histórias começando e tantas outras encontrando seu desfecho.
Vejo a Miracema que vivi e que continua inteira dentro de mim.
Por isso, meu caro Flávio Franco, obrigado pela lembrança e pela inspiração.
Sei que nem todos compartilham desse sentimento, mas não tenho vergonha de dizer:
Tenho saudade da Kiskina!
Saudade da esquina, das conversas, dos amigos, das cervejinhas e até daqueles carros barulhentos que tanto me incomodavam.
Porque, no fundo, a saudade não é apenas de um lugar.
É do tempo em que bastava sentar numa esquina para encontrar um pedaço da felicidade.
E, enquanto houver memória, a Kiskina continuará de portas abertas dentro de mim.

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