Papo de Botequim - Na confraria do Ninil
O sol, esse gigante de fogo que insiste em se pôr mais devagar em Campos dos Goytacazes, mal tinha deixado as barras da calça no horizonte quando me vi diante Armazém. O ambiente estava o de sempre: aquela mistura de boteco, cheiro de fritura e a promessa de que, ali, as leis do relógio não tinham jurisdição.
Entrei com a "caixinha o demônio debaixo do braço, meu som vintage, já esperano aquele tilintar dos copos gelados e de quem tem pressa para o primeiro gole e eu formulasse o pedido.
— Hoje não tá do jeito, meu amigo. A geladeira deu um soluço de morte e a cerveja tá apenas... ambiente.
Olhei para a prateleira vazia, desolado. Como debater os mistérios de Gonzaguinha ou as complexidades da vida sem a cúmplice gelada para aliviar o calor lá de fora? Acomodei-me em um canto estratégico. O caixinha deu um estalo antes de harmonizar. Coloquei "Mesa de Bar" para tocar. A voz de Gonzaguinha preencheu o lugar não como som, mas como uma presença física, quase divina.
E foi aí que o fenômeno aconteceu.
A música não apenas tocou; ela dobrou a esquina do tempo. Ao primeiro acorde, vi a cadeira vazia à minha direita ganhar um contorno de luz. Primeiro, um contorno embaçado de Paulinho, colocando um CD invisível na caixinha de som. Logo depois, o brilho da aura de Canário surgiu à esquerda, puxando o verso da canção, e Chiquinho ocupou a cabeceira, ajeitando um chapéu de sombras.
O bar parou. Ou melhor, nós entramos no bar deles.
A conversa não era de palavras, mas de sensações que percorriam a mesa como uma brisa quente. Falávamos de inflação, do peso de ser brasileiro, do amor que a gente tinha deixado ir porque não soube manter a chama acesa. Fantasia? Certamente. Mas o gole daquela cerveja morna pareceu, sob a batuta de Gonzaguinha, o elixir mais fino que já bebi. O gosto da realidade foi mascarado por uma doçura estranha, a doçura do que não volta, mas não se perde.
A cabeça girou. As luzes fracas do Armazem pareceram as estrelas de um céu que só existe depois da meia-noite. Chiquinho apontou para a minha caixinha de música com aquele sorriso de quem conhece todos os segredos do universo.
"O papo estica, a noite avança", pensei. As risadas deles não eram som, eram vibração na madeira da mesa. O botequim, sob o encantamento daquele momento, tornou-se o centro da própria existência. Ali, naquele recorte de tempo, a tristeza era apenas um tempero para a alegria de ter existido, de ter rido, de ter sido.
Quando o sol ameaçou dar os primeiros sinais de retorno lá fora, o espectro da nossa turma começou a se desfazer como fumaça. A cadeira, novamente vazia, só tinha as marcas do tempo, a madeira gasta pelas mãos de tantos que, como nós, entenderam que o boteco é a catedral do improvável.
Dei o último gole — ainda ambiente, mas agora com o gosto de um néctar proibido. Saí para a rua, levando a caixinha sob o braço, com o peito aquecido por uma melancolia alegre.
Viva o bar. Viva o mistério de Gonzaguinha. E, principalmente, viva a beleza das mesas que, mesmo quando parecem vazias, estão sempre abarrotadas de gente que a gente nunca vai esquecer.

Alegria e amizade contagiante.
ResponderExcluirMagnífico amigo Dutra, saudade eterna. Cacá Motta.
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