Baú do Penacho-Sertão da Paraíba
Às seis da manhã, quando o despertador tocou com aquela falta de piedade característica dos horários impróprios, eu me fiz a clássica pergunta existencial: "Quem foi que eu tentei impressionar aceitando esse bate-volta?". Cinco horas de ônibus para ir, cinco horas para voltar. Meu corpo já doía só de olhar para a poltrona, que parecia ter sido projetada por alguém com profundo desprezo pela anatomia humana.
A guia, uma criatura animada que devia ser movida a energia solar e cafeína pura, prometia o paraíso: Cabaceiras, a "Roliúde Nordestina". Eu só pensava que o roteiro da minha vida naquele momento era, na verdade, "A Volta dos que não têm Juízo".
Mas, veja bem, o Sertão é um trambiqueiro da beleza. Ele te convence a aceitar o desconforto usando como suborno um horizonte de caatinga que, a cada quilômetro, te deixa com cara de tacho. Você olha para fora da janela e pensa: "Credo, que seca". Cinco minutos depois: "Gente, que misticismo". Dez minutos depois: "Eu seria muito feliz vivendo aqui, comendo mandioca e meditando sob um cacto". O cansaço é real, mas o deslumbre é um sequestrador sorrateiro.
Quando chegamos à "Roliúde", confesso que tentei dar uma de galã de faroeste. Estufei o peito para a foto, segurei a respiração (o que foi um erro tático grave depois de quatro horas sentada) e fiz pose de quem domina aquele território. O lugar tem aquela aura de Velho Oeste que faz a gente querer tirar as botas empoeiradas e pedir um uísque no balcão — pena que só tinha água mineral quente e um salgadinho de milho que deixava o farelo na camisa.
Depois, fomos para o Lajedo do Pai Mateus. Se alguém me contasse que gigantes brincaram de pedrinhas lá atrás, eu acreditaria. As pedras enormes, os matacões arredondados, tudo aquilo parecia cenário montado por um cenógrafo metido a perfeccionista. Eu caminhava entre aquelas rochas me sentindo um extra num filme de ficção científica épico.
E então, o tal pôr do sol. Sabe aquele momento que nem filtro de Instagram aguenta? O sol começou a baixar e o sertão, antes austero, virou uma pintura a óleo em tons de laranja e violeta. Ali, naquele lajedo, eu esqueci que tinha as costas travadas e que a bateria do celular estava a 4%. Eu só queria que o tempo pausasse — ou que, pelo menos, o ônibus de volta não estivesse me esperando com aqueles bancos de espuma impiedosa.
Para fechar o pacote "viagem que quase custou minha sanidade", tivemos a cereja do bolo: a tal travessia da barragem. Quando vi aquela passagem estreita, com uma altura de dar um nó no estômago, o instinto de sobrevivência bateu à porta e pediu para entrar. "Não vai", dizia a razão. "O quê? Vai ter vergonha na cara e passar, que a gente está aqui para isso!", respondia o delírio da viagem.
Cruzei. Passei tremendo como vara verde, concentrada para não virar protagonista de um documentário do Discovery Channel intitulado "O erro final da turista da Paraíba". Quando cheguei do outro lado, ri sozinha. Em estado de ebriedade pela paisagem, a gente faz dessas: atravessa abismos porque acha que o horizonte é uma propriedade privada sua.
No fim das contas, a viagem que me prometeu um filme de cinema me entregou algo muito melhor. Aprendi que o cansaço é passageiro, a coluna volta para o lugar depois de um bom descanso, mas a memória de ter visto o mundo ganhar cores impossíveis sob o sol da Paraíba? Isso a gente leva na bagagem, mesmo que tenha que enfrentar dez horas de ônibus para conquistar o direito de guardar o tesouro.
E, sim, na próxima viagem com a mesma guia, eu provavelmente aceitarei de novo — nem que seja para testar até onde vai o meu estoque de aventuras.

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