VIAJAR SEM SAIR DA POLTRONA


Tenho um amigo, parceiro das sextas-feiras no Armazém, que é apaixonado por viagens. Chama-se Manoel, um sujeito do bem, daqueles que fazem da amizade um compromisso e da curiosidade uma maneira de conhecer o mundo.

Manoel tem dois hobbies que combinam perfeitamente com nossas conversas: assistir aos programas de turismo na televisão e acompanhar filmes de guerra, especialmente aqueles que retratam os horrores e as barbaridades da Segunda Guerra Mundial.

Nas nossas reuniões, ele e o Henrique sempre encontram uma oportunidade para me provocar:

— Conta mais uma daquelas viagens, Dutra!

E lá vou eu abrir o meu baú de lembranças, percorrendo novamente cidades, monumentos, estradas e lugares que conheci ao longo de tantos anos andando por este mundão de Deus.

Não conto essas histórias por vaidade, muito menos para exibir passaportes carimbados ou colecionar países no currículo. Conto porque gosto de dividir experiências e, principalmente, porque acredito que viajar não é um privilégio reservado a poucos.

É claro que existem dificuldades, limitações e prioridades diferentes para cada pessoa. Mas sempre defendi que, quando possível, vale a pena trocar algumas coisas supérfluas por uma experiência que ficará guardada para sempre.

Afinal, uma viagem termina no aeroporto, mas continua dentro da gente pelo resto da vida.

E, nesses anos de estrada, tive a alegria de incentivar amigos a conhecer novos lugares. Alguns que antes achavam impossível viajar hoje se sentam comigo para contar suas próprias aventuras. E eu, que tanto falei, passo a ser o ouvinte.

Mas voltemos ao Manoel.


Certa sexta-feira, ele chegou com uma história que me deixou particularmente feliz. Havia assistido ao filme O Pianista, aquela obra extraordinária que retrata o sofrimento dos judeus na Varsóvia ocupada pelos nazistas.

E foi logo contando:

— Dutra, você não imagina! Enquanto assistia ao filme, fui lembrando de tudo aquilo que você contou lá no Ninil. Cada lugar que aparecia na televisão parecia familiar. Eu explicava para a patroa o que você tinha contado. Rapaz, parecia que eu também tinha estado lá! Até ela ficou interessada nas histórias e agora quer te conhecer!

Confesso que fiquei emocionado.

Em 2013, quando percorri parte do Leste Europeu, estive em Varsóvia, na Polônia, e conheci lugares que guardam algumas das páginas mais dolorosas da história da humanidade. Entre eles, o Monumento aos Heróis do Gueto de Varsóvia, cuja imagem registrei em fotografia.

São lugares onde o silêncio parece falar mais alto que qualquer guia turístico.

E foi justamente esse silêncio, transformado em lembrança, que consegui transmitir ao Manoel numa conversa entre amigos.

Agradeci suas palavras e aproveitei para recomendar outros filmes.

— Manoel, agora assista a O Menino do Pijama Listrado. Você vai se lembrar do que contei sobre Auschwitz, outro lugar que visitei e que jamais saiu da minha memória.

E acrescentei:

— Depois procure A Lista de Schindler. É outra história impressionante, que nos transporta para a Polônia daqueles tempos sombrios.

Três filmes, três maneiras diferentes de conhecer uma tragédia que a humanidade jamais deveria esquecer.

E pensar que tudo começou numa conversa de sexta-feira, entre amigos, no Armazém.

Hoje, quando recordo esse episódio, percebo que viajar me deu muito mais que fotografias, lembranças e histórias para escrever. Deu-me a oportunidade de levar um pouquinho do mundo para pessoas que talvez nunca tenham pisado naqueles lugares.

Manoel, sentado diante da televisão, reconheceu cenários que conhecia apenas pelas minhas palavras. E eu, sentado diante dele no Armazém, descobri que minhas viagens tinham ido muito mais longe do que imaginava.

Porque existem duas maneiras de viajar: percorrendo o mundo com os próprios pés ou deixando que as histórias de alguém nos levem pela mão.

E naquela sexta-feira, sem comprar passagem, sem fazer malas e sem apresentar passaporte, meu amigo Manoel também esteve em Varsóvia.

E eu tive o privilégio de ser seu guia.

Adilson Dutra — Penacho

Baú do Penacho

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