Deixe-me ir... preciso andar
A sexta-feira no Armazém não era apenas uma data no calendário; era um pequeno santuário erguido contra o peso da semana. As paredes de tijolo aparente, as mesas de madeira gasta e o cheiro de petiscos frescos compunham a trilha sonora silenciosa de uma amizade de longa data.
Quando os primeiros acordes de "Deixa-me Ir" ecoaram pelo ambiente, o barulhento Armazém pareceu filtrar suas vozes, permitindo que a poesia de Candeia tomasse o espaço. Aquela música não era um hino comum; era um mapa afetivo.
Marco — o Vergalhão, figura esguia e de riso fácil que, naquela noite, parecia carregar o peso do mundo sob a camisa, parou o copo de cerveja no meio do caminho. Seus olhos encontraram os meus, e na pergunta dele, logo ali na mesa, notei uma vulnerabilidade que não costumava habitar sua voz firme: "O que te faz dizer que é a letra mais bonita de todas? O que faz esse samba, especificamente, rasgar desse jeito?"
A resposta estava gravada não apenas na minha memória, mas nas cicatrizes que minha biografia insistia em listar. Falei sobre a cirurgia, sobre a sombra que o câncer lançou, sobre o susto do aneurisma. Expliquei que "precisar andar" não é um convite a uma caminhada de lazer, mas uma urgência de quem precisa esvaziar os bolsos da tristeza para abrir espaço à vida.
— Eu preciso assistir ao sol nascer, Vergalhão. Preciso ver o rio correr. A beleza é uma prova de sobrevivência — eu disse, sentindo a voz oscilar levemente.
O silêncio que se seguiu não foi vazio; foi denso. Marco olhou para a caixa de som como se buscasse ali a tradução de seus próprios fantasmas. Seus olhos se marejaram, denunciando que ele também navegava em águas turbulentas. Ele se levantou, a desculpa do banheiro era apenas uma licença para a vulnerabilidade, e antes de se retirar, ele soltou o verso, firme e cortado pela emoção:
— Deixa-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar...
O som de seus passos misturou-se à batida do surdo que vinha da caixinha. De onde eu estava, em meio àquela mesa que tanto tinha visto, respondi quase em sussurro, mas num tom que a cumplicidade nos permitia:
— Diga que eu só vou voltar depois que me encontrar.
Ele, naquele breve percurso, parecia ter iniciado seu próprio resgate. Quando retornou à mesa, o ar estava diferente, como após uma chuva necessária de verão. Fizemos o coro juntos, um punhado de amigos entoando aquele refrão que não era choro, mas a própria gargalhada desafiadora de quem conhece o abismo e decide ficar, pelo menos por hoje, do lado iluminado da vida.
Ali, no Armazém, percebemos que não há segredo no mundo: rir é, de fato, o melhor remédio para reconstruir a alma, e viver — visceralmente, desastradamente, maravilhosamente viver — é o único jeito real de não deixar o sonho apenas no papel.
Que as sextas-feiras continuem sendo o que sempre foram: o reencontro com quem somos, após as voltas que a vida obriga a dar.
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