A marvada, mas Maravilhosa, pinga
Ontem, entre os flashes rápidos dos canais da Globosat, um documentário sobre a cachaça capturou minha atenção, quase como se o destilado subisse pelos olhos e atingisse direto a nostalgia.
Na tela, especialistas dissecavam a nova "mania" nacional, aquele renascimento gourmet onde a pinga, que antes ocupava apenas a prateleira de baixo dos botecos, agora ostenta garrafas com design de cristal em mesas de restaurante sofisticados. Branco ou amarela, forte ou suave, ela unificou o Brasil: hoje, o rico, o remediado e o operário bebem da mesma alma de cana, cada um ao seu estilo, mas todos rendidos ao poder desse líquido ardente.
Aquele filme, porém, funcionou como um portal. Minha mente atravessou a tecnologia da TV para aterrisar em Miracema, nos tempos em que o mundo cabia atrás do balcão do bar em frente à prefeitura, onde eu servia de ajudante para meu pai e meu avô. Ali, o cheiro de madeira, cachaça e sereno era o ar que respirávamos.
Lembro da Maravilhosa, produzida pelo seu Homero Costa naquela fazenda que parecia um templo. Não era apenas cachaça; era um emblema local. Sei que, se a gente garimpar bem na memória e nos contatos, ainda é possível encontrar um dos litros remanescentes guardados pelas mãos do filho de seu Homero, o Toninho Veterinário, guardião desse relicário etílico.
Naqueles anos 60, o balcão ditava o ritmo da cidade. A "Guarda Chuva de Pobre" era a popular absoluta, vinda de São Sebastião do Alto para desafiar as sedes locais. Tinha também a Manitu, vinda lá de Santo Antônio de Pádua, aquela cachaça temerária, respeitada pelos veteranos e evitada pelos novatos como um touro bravo. E, claro, a poesia vinha em goles na "Saudade", do Saliba Félix. No rótulo, os versos imortais de Osmar Barbosa brincavam com a ironia de que a cachaça, apesar de matar a saudade, era o motivo pelo qual o vivente permanecia vivo. E como esquecer a "Pracinha", homenagem de Abib Damian, ex-pracinha da Segunda Guerra, um pedaço da história da Itália traduzido em teor alcoólico?
Por volta das cinco da tarde, quando a luz do sol de Miracema começava a baixar, o "happy hour" original começava. A turma da retífica do Washington chegava em peso, misturando-se aos operários da prefeitura, braços cansados que buscavam alívio. A "Maravilhosa" reinava absoluta nas mesas. Foi ali que a criatividade humana brilhou com o "Melinho": a mistura simples de groselha com cachaça, acompanhada por tiras de pepino ou tomate, servindo de para-choque para o equilíbrio que a mistura tendia a derrubar.
E quem não lembra do susto que foi o "Coquinho" lá no mercado do Basileu Menezes? Aquele coquetel misterioso, que de inofensivo só tinha o nome, carregava um suco de coco que tornava a cachaça traiçoeira. Era doce ao paladar e demolidor no dia seguinte – a ressaca de "Coquinho" era, com certeza, a mais diplomada da região.
Hoje, ser bebedor de cachaça é "chique". Tem evento, tem rótulo caro, tem nota de degustação. Mas o autêntico sabe a verdade. Aqueles que frequentaram o bar do Vicente Dutra e fizeram parte da seleta e ilustre "turma do banquinho" conhecem cada nome que eu gostaria de citar aqui, mas que a elegância me impede. É gente que entende de mé, de marvada, de água que passarinho não bebe.
Dizem que o tempo leva tudo, mas deixa o
gosto. Fica a saudade de ver circulando pela cidade a Rosa de Prata, a joia da antiga Usina Santa Rosa, orquestrada por Carlinhos e Reginaldo Barros.A cachaça evoluiu, o país mudou, e o documentário provou que a moda é passageira, mas a tradição de tomar "uma da boa" é eterna. É ou não é?
A gente pode ter ficado mais velho, mas quando a memória toca a ponta da língua, o aroma da cana parece ainda vir, quentinho e cristalino, de trás daquele balcão antigo, diante da prefeitura de Miracema.


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