O samba que a saudade escreveu

  

O silêncio que se seguiu à última frase de Calil na minha imaginação não foi um vácuo, mas uma nota musical sustentada, um acorde menor que parece ecoar nas ruas de Miracema até hoje. O vento da tarde soprou sobre o papel, e o "Triângulo das Bermudas" — essa geografia do afeto que traçamos — pareceu flutuar, etéreo, como um estandarte antigo que não chegou a cruzar a avenida.

O Samba que a Saudade Escreveu não precisa de carros alegóricos feitos de isopor e purpurina, nem de subvenções das prefeituras ou do patrocínio dos grandes coronéis de outrora. O patrocínio, na verdade, sempre foi outro: o brilho nos olhos de cada morador ao citar um sobrenome que, por si só, já era um samba-enredo inteiro.

A cada passo meu na calçada após a clínica, Miracema não se apresentava como a cidade de tijolo e poeira, mas como um cenário vivo de um filme rodado em câmera lenta. Ali, na esquina, o Seu Manoel ainda servia um café que tinha gosto de acolhimento; um pouco adiante, a voz de Dona Darquinha ainda ditava o tom da elegância sobre como o tempo deve ser tratado — com uma boa dose de cuidado e pó de arroz.

O que percebi, ao caminhar, é que Calil tinha razão, mas de um jeito que ele, em sua tristeza, não viu: o samba não acabou por falta de verba; ele virou crônica.

O desfile que idealizamos continua acontecendo, só que é um desfile íntimo, secreto. Ele passa pelas ruas silenciosas da madrugada, onde cada porta entreaberta é uma ala; cada janela, um camarote; e o eco dos sapatos no asfalto é o surdo marcando o passo. Quando o peito aperta por causa da partida dos nossos — do filho do Calil, dos patriarcas, das modistas, dos mecânicos de almas e carros —, a saudade não nos imobiliza; ela nos coloca uma caneta na mão.

O "Samba da Saudade" é, na verdade, uma resistência. Ele desafia o esquecimento. Quando escrevo — ou quando me lembro —, é como se eu estivesse segurando um rolo de serpentina que atravessa décadas, conectando a padaria do Garibaldi ao terno do Amaro Leitão, transformando a vida miúda de cada cidadão de Miracema em história grande.

Calil hoje é apenas uma memória entre tantas outras, mas o seu enredo está vivo. A Praça da Matriz não é apenas um quadrado de concreto onde as pessoas se sentam; ela é o tablado principal dessa escola de samba que chamo de Minha Origem. Enquanto houver alguém para lembrar do perfume na Loja do Tetinho ou da precisão de um ajuste no Deoclides, o carnaval não termina.

A saudade, essa compositora infalível, escreve seus sambas nos intervalos da dor. Ela pega o "não ter chão" do Calil e transforma em chão firme para que possamos pisar, mesmo que apenas em sonho. E, lá no final da rua, onde o horizonte se funde com a lembrança, posso quase ouvir o repique de um tambor distante. É o samba que a saudade escreveu. Ele não ganha o campeonato dos jurados, mas leva o troféu máximo da imortalidade.

Afinal, na minha Miracema, a gente não perde nada. A gente apenas estoca as pessoas dentro da alma, protegidas pela melodia de quem teve a sorte de conhecer gente de verdade. 🥁✨

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