Garrincha o ídolo de uma geração
Garrincha morreu em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos — embora tenha vivido como poucos. Carregava no corpo as marcas de muitas batalhas, das contusões acumuladas, e na vida travava uma luta dura contra o alcoolismo. Ainda assim, guardo uma certeza: jamais vi Garrincha jogar mal com a camisa da Seleção Brasileira. Com ela, foi sempre brilho, sempre encanto. E ao lado de Pelé, nunca conheceu a derrota.
Eu e Fisíco, botafoguense fanático e apaixonado por Garrincha, travávamos debates memoráveis nos fins de tarde, no velho Bar do Vicente Dutra. A discussão era sempre a mesma: quem foi o maior jogador brasileiro daqueles anos dourados do nosso futebol, Pelé ou Garrincha?
Eu, rendido à arte e à magia do Rei, defendia com unhas e dentes o camisa 10 do Santos FC e da Seleção. Fisíco, firme em sua paixão, não dava o braço a torcer. Sempre tinha uma jogada genial do “Seu Mané” na ponta da língua. E, como acontece nas melhores discussões de botequim, a conversa sempre terminava empatada.
Tive o privilégio de ver Garrincha jogar em Miracema. Preciso confessar: naquele amistoso, Mané parecia ter exagerado um pouco antes da partida, e sua participação acabou sendo mais festiva do que competitiva. Quem sonhava em vê-lo voando em campo talvez tenha saído frustrado. Mas quem queria conhecer o homem por trás do craque saiu encantado.
Simpático como poucos, Garrincha distribuiu autógrafos, sorrisos, histórias... e visitou bares, biroscas e rodas de conversa da minha terrinha naquele domingo ensolarado de um ano que a memória já não alcança com precisão.
Também o vi, das gerais do Maracanã, tentando vencer a idade e as dores. Já beirava os 35 anos — e naquele tempo, um jogador nessa idade já era considerado veterano. Suas passagens por Clube de Regatas do Flamengo e pelo Olaria Atlético Clube, embora carregadas de esperança, já não mostravam o mesmo gênio dos tempos de glória.
Mas as lendas não vivem apenas nos estádios. Vivem também nas ruas.
Lembro das peladas nas ruas de paralelepípedos de Miracema. Thiara, ponta-direita dos bons, sempre dizia ser Garrincha quando arrancava pela ponta e deixava os marcadores para trás. E eu, quando aparecia para empurrar para as redes um passe caprichado do nosso “Garrincha” da Praça das Mães, gritava que era Dida — outro dos maiores craques que vi jogar na vida.
Garrincha foi um gênio?
Para quem hoje se encanta com Lionel Messi — e com razão — fica a pergunta: imaginam o que seria ver Mané Garrincha em ação, entortando zagueiros e fazendo “joões” pelos gramados do mundo?
Poucos jogaram bola. Garrincha brincava com ela.
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