O samba que a saudade escreveu
O silêncio que se seguiu à última frase de Calil na minha imaginação não foi um vácuo, mas uma nota musical sustentada, um acorde menor que parece ecoar nas ruas de Miracema até hoje. O vento da tarde soprou sobre o papel, e o "Triângulo das Bermudas" — essa geografia do afeto que traçamos — pareceu flutuar, etéreo, como um estandarte antigo que não chegou a cruzar a avenida. O Samba que a Saudade Escreveu não precisa de carros alegóricos feitos de isopor e purpurina, nem de subvenções das prefeituras ou do patrocínio dos grandes coronéis de outrora. O patrocínio, na verdade, sempre foi outro: o brilho nos olhos de cada morador ao citar um sobrenome que, por si só, já era um samba-enredo inteiro. A cada passo meu na calçada após a clínica, Miracema não se apresentava como a cidade de tijolo e poeira, mas como um cenário vivo de um filme rodado em câmera lenta. Ali, na esquina, o Seu Manoel ainda servia um café que tinha gosto de acolhimento; um pouco adiante, a voz de Don...