23 de agosto: Dia de lembranças
O calendário na parede, inflexível em seus números, insiste que hoje é 23 de agosto. Para o resto do mundo, é apenas mais um domínio, uma data comum no fluxo incessante do tempo. Mas, dentro da nossa casa, no íntimo de nossa história, ele é, e sempre será, o ponto de encontro da memória.
Coincidências da vida — ou talvez um ajuste refinado do destino —, Zebinho e Lili, nossos pais, escolheram exatamente este dia para se tornarem imortais em nossa lembrança. Ela, a delicada Lili, partiu em 1992; dez anos depois, em 2002, ele, nosso Zebinho, seguiu seus passos na mesma jornada para o Oriente Eterno.
Não há, entre nós, o tom pesado da lamentação ou a amargura da tristeza. Pelo contrário. O que temos é um silêncio , um vazio preenchido por uma presença que teima em não nos deixar. Eles não são sombras; são o cenário de nossas vidas.
Lili viaja conosco. Cada vez que partimos, que ganhamos a estrada, ela está ali na suavidade de uma paisagem, no sorriso de alguém, no perfume de uma flor. É uma presença feita de carinho, a guardiã silenciosa das nossas rotas. Já Zebinho tem uma marca ainda mais terrena. Ele senta-se, sempre, à minha direita. Não é uma figura austera; ele é o homem dos ritmos. Ouço, quase audível em minha mente, os boleros que ele tanto apreciava, as notas precisas e altivas dos dobrados de banda de música que preenchiam seus dias e, consequentemente, os nossos.
Até suas paixões eles trouxeram consigo. Ontem mesmo, senti aquela presença enfurecida, uma indignação clara pairando no ar: o nosso Flamengo havia tropeçado no Mineirão. E eu, sorrindo entre o pesar pelo time e a gratidão pela companhia, percebi que, mesmo na ausência física, as conversas, as indignações e os amores continuam os mesmos.
Há quem diga que não é recomendável — ou que seria uma teimosia nostálgica — olhar tanto para quem já partiu. Mas esse é um conselho que só é capaz de oferecer quem nunca teve a sorte, a imensa sorte, de ter tido uma Lili e um Zebinho em sua trajetória. Para quem teve, a lembrança não é uma âncora que prende, mas uma brisa que empurra.
O que eles nos deixaram foi mais do que um nome; foi uma lição. Amor, esse ingrediente diário que eles cultivavam como quem cuida de um jardim. Respeito, o alicerce silencioso de suas escolhas. Amizade e uma cumplicidade tão profunda que as palavras mal precisavam ser ditas.
Hoje, o 23 de agosto não me traz saudade amarga. Traz apenas a constatação de que eles são partes do que eu sou. E onde quer que estejam, que recebam o meu beijo. Um beijo feito de carinho, respeito e um amor que nem o tempo, nem a distância, jamais conseguirão apagar.

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