23 de agosto: Dia de lembranças
O calendário na parede, inflexível em seus números, insiste que hoje é 23 de agosto. Para o resto do mundo, é apenas mais um domínio, uma data comum no fluxo incessante do tempo. Mas, dentro da nossa casa, no íntimo de nossa história, ele é, e sempre será, o ponto de encontro da memória. Coincidências da vida — ou talvez um ajuste refinado do destino —, Zebinho e Lili, nossos pais, escolheram exatamente este dia para se tornarem imortais em nossa lembrança. Ela, a delicada Lili, partiu em 1992; dez anos depois, em 2002, ele, nosso Zebinho, seguiu seus passos na mesma jornada para o Oriente Eterno. Não há, entre nós, o tom pesado da lamentação ou a amargura da tristeza. Pelo contrário. O que temos é um silêncio , um vazio preenchido por uma presença que teima em não nos deixar. Eles não são sombras; são o cenário de nossas vidas. Lili viaja conosco. Cada vez que partimos, que ganhamos a estrada, ela está ali na suavidade de uma paisagem, no sorriso de alguém, no perfume de u...