Que sábado! Haja coração

 


QUANDO A MÚSICA TOCA, O CORAÇÃO RESPONDE

Por Adilson Dutra — Penacho

Que sábado! Que noite de sábado!

Quantas emoções estavam reservadas para mim neste 31 de outubro de 2026! Não precisava ser assim, tão intenso, tão apaixonante, tão carregado de lembranças. Mas, já que a vida resolveu me oferecer uma noite dessas, deixei acontecer. Sem medo das consequências.

Medo? Sim, medo!

Afinal, emoções também provocam alterações na pulsação, aceleram as batidas e fazem estremecer este peito já cortado, mas que continua abrigando um coração cheio de amor para dar. Principalmente quando o assunto é Miracema.

Foi um sábado de bandas de música. Bandas centenárias! A mais nova com 128 anos de história, a mais antiga caminhando para os 185. E pensar que duas delas me viram, e me ouviram, soprando meu piston, tentando arrancar do instrumento as notas de um dobrado.

Inclusive aquele que, na noite de ontem, voltou a ecoar pela Praça Dona Ermelinda, executado pela mais antiga das bandas: o tradicional e inesquecível dobrado Janjão.

Ah, meu Deus! Como a música tem o poder de devolver a juventude à gente!

Mas o que verdadeiramente me encantou, surpreendeu e emocionou foram os arranjos do maestro Hércules Prado, filho de um homem que fez parte da minha história musical. Seu pai, o saudoso Capitão Prado, foi meu maestro e companheiro de cadeira nas retretas de outros tempos.

E ali estava o filho, diante de uma banda centenária, mostrando que tradição não significa ficar parado no tempo.

Executar o tema de O Fantasma da Ópera exige coragem, talento e sensibilidade. Transformar grandes boleros em arranjos com a vibração dos dobrados, conquistar aplausos de jovens e antigos admiradores, fazer a plateia vibrar com uma banda que atravessou gerações... isso é mais do que um espetáculo musical.

É a certeza de que a nossa Banda Sete de Setembro tem passado, presente e, sobretudo, futuro!

Hércules conseguiu uma proeza: respeitar a história sem ficar prisioneiro dela. Trouxe novos sons, novas emoções e mostrou que os instrumentos que embalaram a juventude de nossos pais e avós continuam capazes de encantar os netos e bisnetos.

E eu, que um dia estive sentado entre aqueles músicos, com o piston nas mãos e a alegria de participar das retretas do Jardim, me vi novamente menino.

Por alguns instantes, não havia idade, preocupação ou coração precisando de reparos. Havia apenas a música, a minha Miracema e um passado que resolveu sair da memória para sentar-se ao meu lado.

Minha alma foi lavada e enxugada — com licença, Odorico Paraguaçu! — pelas emoções de uma noite inesquecível no Festival Cultural de Miracema.

E minha alegria só não atravessou o mar porque, naquela noite, o mar era outro.

Era um mar de lágrimas.

Lágrimas de felicidade, de saudade, de gratidão. Lágrimas que escaparam dos meus olhos e se espalharam pelo chão da Praça Dona Ermelinda, onde deixei tantos pedaços da minha juventude.

Voltei para casa com o coração acelerado, é verdade.

Mas com a alma em paz.

Porque há músicas que ouvimos com os ouvidos. Outras, com a memória. E existem aquelas que só o coração consegue escutar.

Naquela noite, em Miracema, ouvi todas elas.

Sou feliz. Sou de Miracema!

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